Por: Guilherme Villa Verde

O Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção ao suicídio que procura informar e conscientizar a sociedade sobre a importância de oferecer e buscar ajuda para o enfrentamento desse grave problema. Conforme estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. No Brasil, entre 2007 e 2016, foram registrados 106,3 mil mortes por essa causa.

Para abordar o tema, a Secretaria de Comunicação Social do TRT-RS, em parceria com a Coordenadoria de Saúde, entrevistou a psicóloga Gabriela Ballardin Geara. Ela atuou por dois anos no Centro de Atenção Psicossocial de Venâncio Aires/RS, atendendo pacientes com risco de suicídio.

Os suicídios ocorrem de forma impulsiva ou geralmente há sinais de que a pessoa está inclinada a praticá-lo?
Na maioria das vezes as pessoas sinalizam que o suicídio poderá ocorrer. Por isso a OMS diz que 90% dos casos são evitáveis. O que acontece é que há perfis diferentes: algumas pessoas planejam em detalhes, enquanto outras estão em um quadro de depressão mais leve, sem tanto risco, mas passam por algum evento estressor muito grande que as leva a tentar ou a realizar mais impulsivamente o suicídio. Esse evento pode ser, por exemplo, a pandemia que estamos vivendo. Nesse período inclusive foi percebido um aumento nos índices dessas mortes. O evento também pode ser a perda de um familiar, a descoberta de uma doença grave ou uma grande perda financeira. O tipo de evento estressor vai depender de cada um: há pessoas que não sofrem tanto com a perda de um emprego, mas podem se machucar mais com uma traição amorosa, por exemplo.

Quais sinais devem nos servir de alerta e precisam ser observados nas pessoas que estão próximas?
Geralmente ocorrem mudanças bruscas de comportamento na pessoa que vai praticar o suicidio. Alguns vão deixar de cuidar da higiene e da aparência, porque pensam que já não precisam mais investir em si mesmos. Mas isso é algo muito complexo, porque esses mesmos sinais também podem ser sintomas de uma depressão em que não há risco de suicídio. Por isso, sempre devemos estar atentos a um conjunto de fatores.

Algumas pessoas alteram seu padrão de uso de substâncias tóxicas, como o álcool. Exageram ou passam a consumir outras drogas, inclusive com abuso de medicações. Elas perdem o que chamamos de “freio inibitório”, porque já estão pensando que não sofrerão as consequências dos seus atos, e se expõem a mais riscos. Também podem ser riscos sexuais, como a procura de muitos parceiros sem os cuidados de proteção.
Os sinais também variam de acordo com o perfil. Alguns, mais metódicos, começam a tratar de pendências. Visitam parentes que não viam há muito tempo, porque querem se despedir. Às vezes compram presentes para deixar uma última lembrança, pedem perdão, tentam resolver disputas antigas ou desentendimentos. Outros começam a se isolar, ficam sem falar com os outros. O importante é prestar atenção nas alterações muito drásticas no comportamento habitual da pessoa.

Além disso, também há pessoas que avisam. Nesse caso, são sinais verbais, as chamadas frases de alerta. São comentários como “eu não posso fazer nada”, “eu não aguento mais”, ou até “eu preferia estar morto”. Quando os casos se agravam, é comum a pessoa dizer que é um peso para os outros ou que sua morte seria um grande alívio para quem está próximo. É preciso ter muito cuidado quando aparece esse tipo de fala, ou também quando há sinais mais evidentes de que ela já está planejando o suicídio.

O fato de já ter ocorrido uma tentativa é um sinal mais grave?
A tentativa prévia de suicídio é o maior fator de risco, o mais significativo. Sempre que alguém revela que fez uma tentativa, mesmo que tenha ocorrido há muito tempo, já está configurado o maior dos fatores de risco. Se formos comparar uma pessoa que hoje está planejando o suicídio e nunca tentou com outra que já tentou no passado, a rigor, o caso mais preocupante seria o da pessoa que já tentou. Isso porque a fase de planejamento pode durar mais tempo, e ainda pode haver certo fôlego para intervir e ajudar. Mas quando houve uma tentativa prévia, a pessoa pode passar muito rápido do planejamento para a nova tentativa.

Quando os sinais aparecem, como devemos agir para ajudar?
A primeira coisa é não colocar mais pressão. Porque se a pessoa está nesse ponto, ela já se sente sobrecarregada de problemas, de frustrações. Então, se a gente começa a colocar mais metas em cima delas, como dizer que ela precisa levantar da cama ou frequentar uma academia, por exemplo, pode ficar mais complicado. Também devemos ter cuidado com julgamentos e críticas. Não se deve dizer para a pessoa que aquilo é uma bobagem ou que não vai resolver nada. O que precisamos fazer é acolher, mostrar que percebemos que a pessoa não está bem e nos colocar à disposição para ajudar, ouvir e conversar, com tempo e atenção. Essa presença ao lado da pessoa é muito importante.

E no caso da pessoa que está na situação de risco, que tipo de ajuda ela deve procurar?
Ela pode procurar um serviço de saúde. Se ela já está em acompanhamento, o ideal é entrar em contato com o profissional da saúde. Pode ser o psicólogo, o psiquiatra, ou, se não estiver em nenhum tipo de tratamento mental, algum médico mais próximo.

Além disso, ela pode buscar um hospital, em qualquer emergência 24 horas (UPA – Unidade de Pronto Atendimento), uma unidade básica de saúde, ou um centro de atendimento psicossocial. Nessas situações, os amigos e familiares também podem auxiliar, acompanhando ou direcionando a pessoa até esses locais. Quando há um caso de automutilação, ou outros tipos, de tentativa em que é difícil conter a pessoa, quem estiver próximo podem chamar o SAMU (192).

Outra opção de ajuda muito interessante para quem está passando por esse problema é o Centro de Valorização da Vida (CVV). Eles atendem ligações em qualquer dia e horário pelo número 188. É um serviço gratuito de apoio emocional, oferecido por voluntários.

O assunto do sucidio ainda é considerado um tabu. Esse tema deve ser mais debatido ou ele pode acabar incentivando a prática?
Falar sobre o tema não incentiva as pessoas a se suicidarem. O que se deve evitar é falar em
detalhes sobre um método de suicídio. A OMS, em uma orientação aos profissionais da mídia, esclarece que os casos de suicídio podem ser noticiados, mas que não se devem detalhar os métodos. Além disso, não se deve expor desnecessariamente a família nem invadir sua privacidade. É importante respeitar o sofrimento dessas pessoas, que são as sobreviventes do suicídio, aquelas que têm um vínculo maior com quem faleceram.

Mas, de forma geral, falar sobre o assunto ajuda muito, para que as pessoas entendam que é uma questão de saúde, uma questão humana. A educação sobre a saúde mental é sempre bem-vinda. Manter este assunto como tabu só piora a situação.

Esse tema está ligado à questão de como lidamos com os nossos sofrimentos?
Sim, está relacionado a como lidamos com o sofrimento. É importante entender que o sofrimento faz parte da vida, mas até certo ponto. Depois a gente precisa pedir ajuda, aceitar a ajuda, aceitar o tratamento. A gente não precisa tentar resolver os nossos sofrimentos sempre sozinhos e isolados, inclusive porque muitas vezes contamos com raros e escassos recursos para isso.

De modo geral, o que previne é podermos cuidar da gente, contar com uma rede de apoio, desde profissionais de saúde até os amigos e a família. Além disso, tudo o que for positivo para nossa saúde, como praticar atividades físicas ou ter cuidados com alimentação, está ajudando a prevenir o suicídio direta ou indiretamente.

No mundo contemporâneo, o advento das redes sociais modificou a forma como nos relacionamos. Isso também tem impacto sobre o nosso sofrimento e, em última análise, sobre o tema do suicídio?
Sempre precisamos cuidar da conexão humana, é isso que nos protege. Nos casos de suicídio, nós, como profissionais de saúde, sempre vamos chamar alguém que se responsabilize pelo paciente que está com um risco elevado. Nessas situações vamos chamar um familiar, uma amiga, um vizinho ou uma namorada, por exemplo. Alguém tem que aparecer para conseguirmos fortalecer uma rede de apoio.

Quando as redes sociais entram em cena, começamos a ver conexões humanas mais superficiais, mais voltadas para a questão da imagem. Aquele conteúdo é artificial, a gente sempre filtra o que vai postar nas redes. É importante que todos, principalmente essa geração mais nova, tenham a capacidade de refletir e perceber que o que se vê nas redes sociais não é tudo, e muitas vezes não é o real. Existe sim infelicidade, existem rugas, estrias, os mais variados pontos que nos incomodam no corpo e na vida. Isso faz parte da gente e não precisamos lutar contra isso o tempo todo. O nosso valor não depende só disso. Temos um valor intrínseco por sermos quem somos, pela contribuição que damos para o mundo e pelas relações que constituímos com as pessoas mais próximas, que são as mais importantes. Acho que o perigo das redes sociais é esse: o de alterar nossa percepção, a ponto de acreditarmos que o mundo se resume àquilo que aparece na tela. Somos muito mais complexos do que as redes sociais conseguem demonstrar. Muita gente se isola por não se encaixar nos modelos que são divulgados nessas plataformas, e se isola também porque sofre tentando se adaptar a um modelo que foi adotado, mas que só funciona nas imagens ou em raras situações. As redes sociais não podem ser um modelo de vida.

Relações pessoais mais sólidas e construções de redes de apoio seriam as peças-chave para a prevenção do suicídio?
Em termos sociais, sim. Mas também há questões de autocuidado, de a pessoa desenvolver a autocompaixão, a capacidade de ser gentil, consigo mesma. Aqui também entra o autoconhecimento, a autoconfiança e a resiliência. Essas são questões do próprio indivíduo.
Ele precisa olhar para sua história e valorizar sua trajetória, ver suas capacidades e qualidades. A logoterapia é uma linha de terapia na qual focamos em descobrir qual é o sentido da vida para o paciente, porque isso vai ajudá-lo a lidar com as dificuldades. Essa resposta vai ser diferente para cada indivíduo. Tive uma paciente idosa* que vivia um sofrimento muito intenso, e conversei com ela para chegarmos a essa questão, sobre qual era o sentido da vida para ela. Ela me disse que queria aprender a escrever. Eu ensinei ela a escrever uma primeira palavra na consulta e depois a neta dela, que estava sendo alfabetizada, ensinou ela a escrever. A paciente começou a melhorar depois disso.

Individualmente, temos um sentido para a vida, e ele nos ajuda a enfrentar as dificuldades. Já no aspecto social, precisamos fortalecer as nossas conexões e entender nossa humanidade.

Todos nós estamos vulneráveis. Devemos nos apoiar, não precisamos sofrer sozinhos.

Quando há a suspeita de que uma pessoa está inclinada ao suicídio, isso não pode ser minimizado ou visto simplesmente como uma tentativa de chamar a atenção. Não podemos ignorar os sinais que nos rondam, precisamos falar sobre esse assunto, conversar com as pessoas que estão em risco. Na dúvida, o melhor é procurar um profissional de saúde.

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho, 4ª Região, RS, 24 de setembro de 2020.

https://www.trt4.jus.br/portais/trt4/modulos/noticias/333063