Mesmo com retração de 4% no setor de bebidas, setor dribla crise e aumenta produção em 2,7% no primeiro semestre com alta de quase 1% no faturamento; varejo alimentar e exportações impulsionaram os resultados

Por: Simoni Saris

A indústria brasileira de alimentos e bebidas registrou alta de 0,8% em faturamento e 2,7% em produção física no primeiro semestre de 2020 na comparação com os seis primeiros meses de 2019. Os dados da pesquisa conjuntural da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos), divulgados nesta semana, mostram que apesar dos prejuízos no setor de alimentação fora de casa, gerados pela crise do novo coronavírus, o desempenho do varejo alimentar compensou a queda e puxou para cima os resultados, juntamente com a expansão das exportações.

O estudo apontou um faturamento de R$ 356,5 bilhões entre janeiro e junho deste ano, contra R$ 332,5 bilhões computados em igual período do ano passado – crescimento nominal de 6,7%. Descontada a inflação, o crescimento foi de 0,8%. Diante dos resultados, a perspectiva da Abia é fechar o ano com alta de 10%. Dos R$ 356,5 bilhões registrados até junho, R$ 294,1 bilhões vieram da indústria de alimentos e os outros R$ R$ 62,4 bilhões representam o faturamento da indústria de bebidas, que teve queda. “O setor de alimentação fora do lar sofreu mais. A indústria que fornece para o varejo, do lar, foi bem. No ano passado, o setor de bebidas teve uma participação alta, mas neste ano sofreu um enxugamento importante”, avaliou o presidente executivo da Abia, João Dornellas.

Reflexo do fechamento ou funcionamento com restrições de bares, restaurantes, hotéis e instituições de ensino, três setores diretamente ligados à alimentação fora de casa tiveram as principais quedas no faturamento: laticínios (-4,2%); bebidas (-4%) e derivados de trigo (-0,3%). “Esses são os três setores que mais fornecem para alimentação fora do lar. Quanto mais rápido o Brasil sair da situação de pandemia, quanto mais cedo o setor fora do lar for retomado, mais cedo o setor de bebidas retoma também”, explicou Dornellas. Na outra ponta, os que mais faturaram foram açúcar (33,8%), óleos vegetais (18,5%) e carnes (17,7%).

Setores que mais faturaram foram açúcar (33,8%), óleos vegetais (18,5%) e carnes (17,7%)

Enquanto o varejo alimentício teve alta de 12,2% nas vendas no primeiro semestre, o chamado food service, que engloba os serviços de alimentação fora de casa, retraiu 29,5%, passando de R$ 91,4 bilhões em 2019 para R$ 64,5 bilhões neste ano. “Em janeiro e fevereiro vínhamos com crescimento no setor e a perspectiva era fechar o ano com 6%, mas a partir de abril, o food service foi fortemente impactado pela pandemia”, destacou Dornellas. “No ano passado, o food service representou 33% da indústria de bebidas. Neste ano, 23%”, comparou.

Paraná
No Paraná, a produção de alimentos é a principal atividade industrial do Estado, representando entre 30% e 31% do PIB (Produto Interno Bruto) industrial paranaense. O setor também é responsável pela geração de 20% a 23% dos postos de trabalho da indústria. De janeiro a junho, foram criadas 4.879 vagas. “É um setor extremamente importante para o Paraná na geração de valor e mercado de trabalho. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que quem puxa o crescimento da atividade industrial no Estado é o setor de alimentos”, avaliou o economista da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), Evanio Felippe.

No primeiro semestre, a produção física do setor cresceu 6,3% no Estado, o que impediu um recuo ainda maior das atividades industriais paranaenses como um todo, que no cômputo geral registaram queda de 8,6% neste ano. “Com uma maior flexibilização das medidas de isolamento no Brasil e no Estado, no segundo semestre a gente visualiza uma recuperação dos indicadores do comércio, do serviço e da indústria. Mas há uma incerteza muito grande porque pode haver uma segunda onda da Covid-19, o fim das políticas financeiras do governo federal e a queda nas exportações provocada por uma recessão nos países importadores”, disse Felippe.

No início de 2020, a Abia projetava crescimento de 2,5% a 3,5% para o setor de alimentos. Agora, com os efeitos da pandemia sobre parte do setor, o acumulado do ano não deve ser tão bom e a perspectiva de expansão caiu para menos da metade. “Se fecharmos o ano a 1% vai ser uma grande vitória”, disse Dornellas.

O economista da Fiep lembrou, no entanto, que das 13 atividades industriais analisadas pelo IBGE, 12 reverteram a tendência de queda por dois meses consecutivos. “Invertemos a curva. O pico de queda ficou para trás. Se a gente conseguir zerar as perdas acumuladas no primeiro semestre, podemos ter uma recuperação no Brasil e no Paraná, mas a que velocidade ainda não dá para saber.”

Vendas ao mercado externo crescem quase 13%
A Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) destacou o avanço das exportações entre os fatores que contribuíram para alavancar os resultados do setor mesmo em meio a uma crise sanitária sem precedentes. No primeiro semestre de 2020, as vendas ao mercado externo cresceram 12,8% sobre o mesmo período do ano passado, totalizando US$ 17,6 bilhões contra US$ 15,6 bilhões em 2019.

O setor atende à demanda de 180 países, sendo a Ásia o principal mercado, com uma fatia de 46,7%, com destaque para a China, responsável por 20,3% das compras. Em seguida, vêm União Europeia (15,5%) e Oriente Médio (10,8%). Os produtos com maior volume de comercialização nas transações em dólares foram os açúcares (48%), óleos e gorduras (30%) e as carnes (11,96%).

Segundo a Abia, a contribuição do setor para o saldo geral da balança comercial brasileira alcançou o patamar recorde de 68,2% do total. A perspectiva da indústria da alimentação para este ano é exportar entre US$ 36 bilhões e US$ 38 bilhões, um crescimento de cerca de 11% ante o ano passado, quando as vendas externas do setor somaram US$ 34,1 bilhões.

Setor gerou 10,3 mil vagas de trabalho
A Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) também destacou o aumento de 0,6% nas contratações diretas e informais do setor no primeiro semestre de 2020, contrariando os números globais do mercado de trabalho no país, que registraram o fechamento de quase 1,2 milhões de vagas formais entre janeiro e junho.
A indústria de alimentos gerou 10,3 mil postos com carteira assinada no período e o aumento está associado à expansão da produção e à necessidade de contratação para compensar o afastamento temporário de colaboradores pertencentes a grupos de risco para a Covid-19. Hoje, as 36,1 mil empresas do setor empregam 1,67 milhões de trabalhadores, o que corresponde a 25,3% dos postos de trabalho da indústria de transformação brasileiro.

O presidente executivo da Abia, João Dornellas, ressaltou o crescimento na geração de vagas mesmo com a elevação de 4,8% no custo médio de produção devido à pandemia. Como o custo de produção industrial representa, em média, 58% do custo total do setor, um aumento de quase 5% neste item gera um impacto no custo total da indústria de alimentos entre 2% e 2,5%.

Fonte: Folha de Londrina, 14 de agosto de 2020.

https://www.folhadelondrina.com.br/economia/industria-de-alimentos-cresce-em-meio-a-pandemia-3013525e.html