Com o agravamento da pandemia e aumento nas restrições de circulação, a expectativa é de piora nos indicadores do mercado de trabalho nos próximos meses

Por: Ana Conceição e Lucianne Carneiro

O ano começou com número recorde de desempregados no país – 14,27 milhões de pessoas – e também dos chamados desalentados, pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar vaga – 5,9 milhões. A taxa de desocupação, de 14,2% no trimestre encerrado em janeiro, foi a maior da série histórica, iniciada em 2012, para o período, segundo a da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com o agravamento da pandemia e aumento nas restrições de circulação, a expectativa é de piora nos indicadores do mercado de trabalho nos próximos meses, segundo analistas.

No trimestre que terminou em janeiro, houve avanço de 1,73 milhão de pessoas na população ocupada, mas a taxa de desemprego ficou praticamente estável em relação ao trimestre anterior, encerrado em outubro, diante da incapacidade de o mercado absorver o aumento da força de trabalho, de 1,94 milhão de pessoas, maior que a geração de vagas. A maior parte de quem conseguiu uma ocupação (81%) foi no mercado informal, de menores salários e condições mais precárias.

A população ocupada ficou abaixo do esperado pela LCA Consultores, que estimava 87,2 milhões ante o realizado de 86 milhões. O dado foi a surpresa negativa do período. “Isso mostra que, no curto prazo, a situação talvez esteja mais difícil para os indivíduos se reinserirem no mercado, principalmente os informais”, afirma o economista Bruno Imaizumi.

O fato de a economia não estar gerando ocupação suficiente – ainda que informal e precária – para absorver o aumento na força de trabalho é ainda mais preocupante. Com menos renda, mais pessoas voltem a buscar uma ocupação. “A divulgação dos dados do trimestre móvel de janeiro é a primeira em que um terço da amostra está sem o auxílio emergencial, e dois terços, com o valor reduzido pela metade”, observa Imaizumi. O fato de o auxílio, de valor menor e para menos pessoas, voltar em abril não deve arrefecer essa volta ao mercado de trabalho. Para fevereiro, a LCA estima um aumento na taxa de desemprego a 14,5%.

Os números devem permanecer ruins nos próximos meses, com tendência de recuperação no segundo semestre, acompanhando o avanço da vacinação contra a covid-19, na avaliação de Silvio Paixão, professor de macroeconomia da Fipecafi. “Esses números devem ser manter na mesma toada até meados do ano”, diz ele, ressaltando o grande contingente ainda fora da força de trabalho – 5,7 milhões de pessoas – e que deve sair em busca de renda. O economista Tiago Cabral, do instituto IDados, chama atenção para a taxa de participação, que em janeiro ficou em 56,8% muito abaixo de janeiro do ano passado, de 61,7%. “Há um contingente reprimido que deve voltar ao mercado e pressionar a taxa de desemprego.”

Para o Banco Safra, a dinâmica de recuperação que foi observada nas últimas divulgações da Pnad está em xeque por causa do recrudescimento da pandemia. Alberto Ramos, do Goldman Sachs, considera que o mercado de trabalho deve permanecer fraco no curto prazo por causa da covid-19. “Uma vez que o surto seja controlado, a taxa de desemprego pode não cair significativamente”, afirmou Ramos, em nota, avaliando que a volta de mais pessoas à força de trabalho deve seguir acima da criação de novos empregos.

Todos os economistas chamam atenção para os 32,4 milhões de trabalhadores que fazem parte do chamado contingente subutilizado e o recorde de 5,9 milhões de desalentados.

Quanto à renda, o aumento do emprego informal, de menores salários, fez o rendimento real dos ocupados cair 0,2% de dezembro para janeiro, na série com ajuste sazonal, nas contas de Lucas Assis, da Tendências Consultoria, o quarto recuo consecutivo. O agravamento da pandemia, com reintrodução das medidas de isolamento, terá impacto negativo principalmente entre os informais, mas também no mercado de trabalho em geral. “A pandemia, sinais de fraqueza em importantes setores econômicos, a redução do arsenal de políticas anticíclicas e as incertezas da agenda de política econômica devem manter o mercado de trabalho fragilizado”, aponta.

Fonte: Valor Econômico, 01 de abril de 2021.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/04/01/desemprego-e-desalento-comecam-o-ano-com-recordes-aponta-pnad.ghtml