Com a recente melhora nos números de casos e mortes e o avanço na vacinação, há um relaxamento nas medidas restritivas. Veja como avaliar o risco de infecção nesse novo cenário e se proteger.

Por: André Biernath

Nas últimas semanas, prefeitos e governadores de várias partes do Brasil anunciaram um relaxamento das medidas de contenção da pandemia, que mantinham muitos espaços de convivência, como shoppings, restaurantes e estádios de futebol, fechados ou com horários e taxas de ocupação mais restrita.

O alívio tem a ver com três fatores principais. O primeiro deles é a redução significativa na média móvel de casos e mortes por Covid-19: no mês de setembro, foram registrados os números mais baixos desde o início de 2021.

O segundo ponto tem a ver com o avanço da vacinação. Até o momento, 71% dos brasileiros já tomaram a primeira dose e 41% estão com o esquema de proteção completo. Embora se saiba que os imunizantes não sejam 100% efetivos para evitar a infecção pelo coronavírus, eles previnem de forma significativa o agravamento da doença, que exige internação, intubação e pode levar à morte.

Em terceiro lugar, não dá para ignorar o cansaço acumulado ao longo dos últimos meses. Estamos na pandemia há um ano e meio e é complicado pensar que todo mundo continuaria em isolamento completo por todo esse tempo.

“A pandemia não acabou, mas as pessoas não querem mais se restringir com a mesma intensidade de antes”, constata a médica Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora de biossegurança da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

“Existe um limite de quanto conseguimos priorizar apenas o aspecto médico. Todos, estamos cansados e há uma necessidade de retomar as atividades econômicas”, admite o infectologista Renato Grinbaum, que também integra a SBI.

“E é perfeitamente possível pensar numa reabertura se tomarmos certos cuidados”, completa o médico.

Que fique claro: as boas notícias recentes não significam uma liberação geral. Mas elas permitem, sim, fazer algumas coisas com um pouquinho de mais liberdade, dizem os especialistas.

Mas como fazer isso na prática? Quais são as recomendações básicas para retomar um pouco da rotina e minimizar o perigo de pegar a Covid-19? Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil levantam dicas práticas para manejar o risco e evitar que os números da pandemia voltem a subir.

Os pilares de uma retomada segura
O físico Vitor Mori, que faz pesquisas sobre engenharia biomédica na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, acredita que a discussão sobre o manejo de risco da Covid-19 ficou muito prejudicada no Brasil por causa da polarização política.

“Durante muito tempo, tínhamos um lado que dizia ser necessário reabrir tudo sem restrições.

Outra parcela, por sua vez, reagiu a esse comportamento e foi para um caminho mais proibicionista. Era tudo oito ou 80” diz o especialista, que também faz parte do Observatório Covid-19 BR.

“Isso prejudicou muito o debate sobre redução de danos e a criação de políticas públicas que deveriam ter como base a autonomia do indivíduo. Temos que entender que as pessoas são suficientemente inteligentes e capazes de fazer escolhas conscientes se tiver boas informações”, completa.

Numa entrevista recente à BBC News Brasil, o infectologista Ricardo Palácios, ex-diretor de pesquisa clínica do Instituto Butantan, seguiu essa mesma linha de raciocínio.

“Precisamos começar a explicar para as pessoas sobre o manejo de risco. Um exemplo: você quer passar o Natal com familiares e amigos. Como planejar esse evento para que ele não acabe disseminando a Covid-19 para pessoas vulneráveis, que vão acabar internadas?”, questiona o especialista.

Do ponto de vista prático, existem algumas premissas básicas a serem seguidas antes de pensar em retomar algumas atividades sociais.

O primeiro passo é aguardar 14 dias após completar a vacinação, seja com as duas doses ou com o imunizante da Janssen, de dose única. Esse é o tempo necessário para que o sistema imune crie uma resposta.

“É importante que todo mundo participe da campanha de imunização e tome as duas doses”, reforça Hinrichsen.

Segundo, não dá para abdicar das máscaras na maioria das situações. Dependendo da ocasião, é importante usar modelos profissionais (como a PFF2) e checar se o equipamento está vedando bem as maçãs do rosto, a região do nariz, as bochechas e o queixo.

Terceiro, é necessário adaptar as recomendações à realidade individual e ter muito cuidado com a parcela da população que é mais vulnerável aos estragos da Covid. Se você vive na mesma casa de um idoso ou de uma pessoa com imunidade comprometida, por exemplo, as precauções devem ser bem maiores, para minimizar a probabilidade de você se infectar com o coronavírus e transmiti-lo para esses familiares.

“E não podemos nos esquecer também das recomendações básicas de higiene. Ao tossir ou espirrar, cubra a boca e o nariz com as mãos para evitar espalhar gotículas e aerossóis por todo o ambiente”, acrescenta Grinbaum.

Se você apresenta qualquer sintoma ou algum sinal típico de gripe ou resfriado (coriza, tosse, febre, dor no corpo…), é importante suspender qualquer atividade social ou de trabalho e evitar ao máximo o contato com outras pessoas. Se for o caso, vale buscar a orientação médica e fazer um exame para confirmar ou descartar o diagnóstico de Covid-19.

Mori orienta que as pessoas evitem, sempre que possível – situações que representam maior risco de infecção. Ele usa como exemplo uma política adotada no Japão, que pede cuidado extremo diante de três situações:
• Espaços fechados e mal ventilados;

• Locais onde há aglomerações, com pessoas muito próximas umas das outras;

• Interações sociais com muita proximidade física e por um tempo prolongado.

“É justamente na intersecção dessas três situações que há o maior risco”, complementa o físico.

Por fim, outra atitude fundamental é ficar de olho nas últimas estatísticas sobre a pandemia da região onde você mora. Se os números de casos, hospitalizações e mortes voltarem a subir, será necessário restringir as atividades novamente.

Com esses cuidados gerais em mente, segundo os especialistas, é possível partir para recomendações de prevenção específicas para cinco situações cotidianas.

Encontros com familiares e amigos
Se você vai participar de uma festa de aniversário, uma refeição ou uma visita a alguém de seu círculo social, o local onde acontecerá esse encontro faz toda a diferença.

“Prefira sempre um lugar aberto e com o máximo de ventilação possível. Pode ser no quintal, na varanda, na laje, na garagem, na rua ou no parque”, exemplifica Mori.

Caso nenhuma dessas opções seja possível e a reunião ocorra num cômodo fechado, abra as janelas e faça de tudo para que o ar circule pelo ambiente.

Eles recomendam manter uma distância mínima de 1,5 metros das pessoas e usar máscara o tempo todo.

“As pessoas têm o costume de tirar a máscara para fazer fotos, dançar, conversar… É preciso evitar esse comportamento”, alerta Hinrichsen.

É claro que, na hora de comer ou beber, será necessário remover o equipamento de proteção do rosto. Mori sugere algumas atitudes para minimizar o risco neste momento (além de manter o distanciamento físico dos demais indivíduos presentes).

“Durante a refeição, o ideal é ficar em silêncio. Nós sabemos que quanto mais alto a gente fala, canta ou grita mais partículas são emitidas pela boca”, diz.

O número de indivíduos nas ocasiões sociais é outro fator que deve ser levado em conta: prefira encontros com poucas pessoas. Assim, fica mais fácil controlar o comportamento (e pedir educadamente que todos usem máscara) ou evitar aglomerações.

Restaurantes, bares e baladas
“No atual momento, entre um restaurante cheio e outro vazio, vá sempre ao que estiver mais vazio”, orienta Grinbaum.

Repare também no distanciamento entre as mesas, dizem os especialistas. Elas estão muito próximas? Ou há um espaço bom entre uma e outra?

Uma boa ideia, segundo eles, é buscar estabelecimentos que atendem com horário agendado ou visitá-los fora do pico, um pouco antes ou depois do horário que a maioria das pessoas costuma almoçar ou jantar.

Vale lembrar aqui que você estará num ambiente em que os consumidores eventualmente vão tirar as máscaras em algum momento para comer e beber.

Se alguém estiver infectado com o coronavírus ali, o risco de as pessoas ao redor pegarem Covid-19 aumenta consideravelmente, especialmente se o local for fechado.

No caso de bares e baladas, o cuidado deve ser muito maior. “Não me parece que seja o momento de ir a esses lugares. Falamos de locais fechados, com muita gente em contato próximo e com pouca adesão às máscaras”, lista Mori.

Na hora de fazer exercícios
Existe um escalonamento de risco de acordo com o tipo de modalidade e o local onde acontece a prática.

Um exemplo: correr ao ar livre no parque, na rua ou na praia é muito mais seguro do que malhar numa academia sem janelas e com muita gente ao redor, aponta os especialistas. O desafio aqui é avaliar os riscos da situação e ver como se proteger da melhor maneira em cada uma delas.

Em academias fechadas, é essencial usar uma máscara de boa qualidade, que veda bem todas as entradas do rosto. Frequentar esse ambiente em horários alternativos, se possível, também é uma ótima ideia.

No caso da atividade física individual ao ar livre e sem nenhuma pessoa ao redor, dá até pra dispensar a máscara se você já foi vacinado. Mas, é claro, lembre-se sempre de vestir esse equipamento de proteção antes e depois do exercício e siga as normas de sua cidade — alguns municípios exigem o uso de máscara em ambientes públicos.

Há ainda uma situação que fica no meio-termo entre as modalidades: os esportes coletivos. É seguro reunir o grupo de amigos para o futebol de final de semana num campo ou numa quadra aberta?

“Sim, desde que todos usem máscara”, responde Grinbaum.

Mori chama a atenção para os eventos que acontecem antes ou depois da partida. “O problema é que há sempre aquela carona com o amigo ou a cerveja e o churrasco após o jogo. Essas são situações que trazem mais risco”, aponta.

Portanto, o ideal é evitar esses encontros sociais prolongados que antecedem ou sucedem a prática esportiva em grupo, ainda mais quando não há respeito ao uso das máscaras.

No transporte público
Falar em distanciamento social em ônibus, trens e metrôs das grandes cidades brasileiras é algo impraticável, especialmente nos horários de pico.

Se você tiver condições, vale usar o serviço de transporte público fora dos períodos de maior movimento, como as manhãs e os finais de tarde, quando a grande maioria dos trabalhadores sai e volta para casa.

Caso não exista essa possibilidade, resta apelar para as máscaras de boa qualidade, de preferência a PFF2, segundo os especialistas.

“Os prefeitos e governadores deveriam pensar até em distribuir gratuitamente a PFF2 a todos os usuários de transporte público”, diz Mori.

Na volta ao trabalho presencial
Com o alívio das restrições, algumas empresas começaram a pedir que os funcionários voltassem a trabalhar nos escritórios, seja durante todo o expediente ou num modelo híbrido, em alguns dias da semana.

Nos prédios mais modernos, existe um sistema de ar condicionado central que renova constantemente o oxigênio num ambiente fechado e que ainda possui filtros para reter partículas microscópicas.

“Os administradores das empresas podem conversar com o engenheiro responsável para garantir que o ar está sendo filtrado dentro dos padrões de segurança”, destaca Mori.

Em edifícios e andares mais antigos, onde não existe essa tecnologia, uma boa estratégia é manter janelas abertas (se possível) ou adquirir equipamentos próprios, como purificadores e monitores de gás carbônico. Eles não são 100% efetivos, segundo os entrevistados, mas já ajudam a entender a qualidade do ar daquele ambiente.

Não custa reforçar que o uso de máscaras deve ser constante, durante todo o expediente. “Os gestores também podem pensar em escalonamentos, especialmente na hora do almoço e no uso de áreas comuns, como refeitórios e o espaço do café”, acrescenta Grinbaum.

Ainda no contexto profissional, existem alguns protocolos comuns que não ajudam em nada na prevenção da Covid-19, segundo os entrevistados. É o caso, por exemplo, da desinfecção de superfícies com água sanitária, álcool ou outros produtos de limpeza.

Nessa mesma linha, os especialistas apontam que a obsessão com a lavagem das mãos e dos objetos também não faz muito sentido quando pensamos no coronavírus, que é transmitido por gotículas e aerossóis que ficam no ar e são aspiradas quando respiramos.

Que fique claro: ter higiene é importante e precisamos lavar as mãos com frequência, até para evitar outras doenças infecciosas. Mas, contra a Covid-19, existem outras medidas de prevenção mais efetivas (distanciamento físico, uso de máscaras, preferência por ambientes abertos e, cuidado com aglomerações) e sobre as quais deveríamos focar nossos esforços.

Por fim, vale reforçar que todas essas estratégias ajudam a diminuir riscos, mas elas não são infalíveis.

“Não existe uma tática de proteção que seja perfeita, mas podemos tomar alguns cuidados para reduzir os danos”, diz Grinbaum. “E precisamos trabalhar para que essas medidas sejam respeitadas pelo bem de toda a sociedade.”

Fonte: G1/Saúde, 29 de setembro de 2021.

https://g1.globo.com/saude/coronavirus/noticia/2021/09/29/coronavirus-como-reduzir-riscos-de-covid-no-dia-a-dia-apos-2a-dose.ghtml