Segundo o executivo, Fanini era responsável por indicar os descontos que ele deveria dar em licitações para construção e reformas de escolas com o fim de ganhar os contratos e realizar pagamento de propinas. Ele revelou, em acordo com a Procuradoria, que parte dos valores desviados abasteceu a campanha de Richa.
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“Em meados de 2013, o Fanini me chamou na Secretaria e falou “ganhe o maior número de obras que você conseguir porque nós precisamos arrecadar dinheiro para a campanha do governador em 2014”. ele me passou uma planilha em papel com todas as obras que seriam licitadas pelo governo, com informações sobre o estágio de cada um dos processos licitatórios. Ele falou “vamos focar nas obras que tenham convênio federal, pois o dinheiro já está na conta do estado”. Disse também que não era pra eu pegar obras com recursos unicamente do estado porque não tinha dinheiro e viraria uma “novela”.

O delator relata que monitorou licitações que iam abrindo e, quando aparecia um edital que interessava à empreiteira, participava.

“assim, a primeira licitação que teve nessa sistemática foi a da escola Lysímaco Ferreira da Costa, em rio Negro, Paraná. Eu conversei com o Fanini e ele me disse para dar um desconto entre 25% (vinte e cinco por cento) e 29% (vinte e nove por cento), para poder ganhar. eu dei o desconto de 28% (vinte e oito por cento) e saí vencedor. O contrato da Lysímaco foi assinado no final do ano de 2013, na mesma época em que eu venci as licitações dos colégios William Madi, Arcângelo Nandi, Jardim Paulista, Ribeirão Grande e Tancredo Neves”, contou.

Souza diz ter sido orientado a fazer medições ‘como se já tivesse sido executado 25% da obra’ e que Fanini se encarregava de fazer as antecipações de medições, ‘mesmo sem a obra ser executada, como forma de arrecadar dinheiro para o caixa da campanha do governador’. “Ele não especificou valor, ele disse assim: “Vamos alimentar a campanha do governador”. Eu decidi apostar. Eu pensei: “Eu tenho o aval do governador, o Beto não perde a eleição”. A conversa era: “agora não podemos deixar faltar dinheiro””.

O empresário relata que, ao prestar contas, a Valor teria de encaminhar ‘as medições como se estivesse cumprindo rigorosamente o contrato, mesmo sem as obras terem sido executadas, que o governo pagaria a empresa do mesmo jeito’.

A partir do momento em que entrou nos supostos esquemas de desvios, o empreiteiro relatou ter custeado gastos dos agentes públicos envolvidos, como a própria secretária do ex-diretor da secretaria, a quem disse ter chegado a pagar US$ 1 mil para bancar uma viagem a Miami.
Outra funcionária que teria recebido propinas seria Marilane Aparecida Fermino Silva, a Mari. “No total eu entreguei quase R$ 200 mil para a Mari. Numa única vez eu levei R$ 90 mil para ela, logo após eu receber o aditivo do colégio Amâncio Moro (ela ajudou a destravar a liberação do aditivo que estava parado há vários meses). Ela disse que esse dinheiro tinha a ver com a quitação do apartamento dela, alguma coisa assim, junto com a Sueli. Ela me mostrava às cartas do Serasa cobrando ela”.

O delator também relata sobre tratativas que fazia com o diretor da pasta a respeito da campanha de Beto Richa (PSDB).

“O Fanini me mandava fazer as medições, pois não podia faltar dinheiro para a campanha. Ele disse “com esses R$ 32 milhões a gente faz a campanha do Beto”. Esse valor de R$ 32 milhões era a soma dos contratos, já incluído o valor dos aditivos, que ele já tinha garantido que sairiam. o Fanini dizia que nenhuma medição de qualquer obra da Sude era autorizada por ele sem que tivesse pagamento de propina”, relatou.

O delator ainda disse à Procuradoria que ‘Fanini determinou que não fosse alimentado o sistema simec, de fiscalização federal, e colocava dados falsos no sistema estadual’.

“Na obra do colégio Lysímaco Ferreira da Costa, em Rio Negro, Paraná, o fiscal Lauro foi afastado pelo Fanini porque não queria assinar as medições falsas, tendo colocado em seu lugar o fiscal Evandro Machado, que já era do esquema. Eu sei que os fiscais que concordavam em assinar as medições falsas eram, além do Evandro, os engenheiros Bruno, Ângelo e o Mauro.”

“Quando começou a ficar com muita discrepância, esses engenheiros começaram a ficar constrangidos, menos o Evandro, que sempre “bancava” as medições. o Fanini tinha prometido para o Evandro que ele assumiria o cargo de diretor da engenharia da Fundepar, quando ele fosse o presidente.”

“O Fanini dizia que o que a gente precisasse da engenharia era para falar direto com o Evandro. O Fanini comentou comigo também que sabia que o Evandro, paralelamente, tinha uns esquemas próprios com umas obras menores e fazia vista grossa. Em relação aos outros engenheiros o Fanini dizia que quem estava ajudando seria recompensado em termos de cargos, mas não deu detalhes.”

COM A PALAVRA, BETO RICHA
“O governador Beto Richa classifica as declarações do delator como afirmações mentirosas de um criminoso que busca amenizar a sua pena. Tais ilações sequer foram referendadas pela Justiça. E suas colocações são irresponsáveis e sem provas. O governador afirma que nunca teve qualquer contato com o senhor Eduardo Lopes de Souza e sequer fez ou pediu para alguém fazer qualquer solicitação a essa pessoa para a campanha eleitoral de 2014. Todas as doações eleitorais referentes à eleição de 2014 seguiram a legislação vigente e foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.
O governador lembra ainda que foi a própria Secretaria de Estado da Educação que, em abril de 2015, detectou disparidades em medições de algumas obras de escolas e abriu auditoria interna sobre o caso. De imediato, o governador determinou a demissão de todos os envolvidos. As informações levantadas internamente também foram repassadas à Polícia Civil, Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado para que tomassem as medidas cabíveis. É importante salientar ainda que a Polícia Civil do Paraná investigou e prendeu os suspeitos na denominada Operação Quadro Negro, a qual jamais teve qualquer tipo de informação antecipada.

Cabe lembrar ainda que, conforme despacho do govenador Beto Richa, a construtora Valor e seus responsáveis foram punidos administrativamente pelo Governo do Estado. Nesse despacho do governador, a empresa foi declarada inidônea para participar de licitações com a administração púbica e foi aplicada uma multa de R$ 2.108.609,84.

Seguindo determinação do governador, a Procuradoria Geral do Estado também entrou com ações civis públicas na 1.ª, 4.ª e 5.ª Varas da Fazenda Publica por dano ao erário contra a construtora Valor e pessoas ligadas à empresa, incluindo o senhor Eduardo Lopes de Souza. Os pedidos de indenização pelos danos causados ao Estado somam R$ 41.091.132,80. Há ainda ações de improbidade administrativa contra os envolvidos, que também buscam ressarcimento dos cofres públicos.

Ou seja, todas as medidas cabíveis foram tomadas para reparação e ressarcimento do erário público e punição dos envolvidos”.

Fonte: O Estadão, 01 de setembro de 2017.

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/com-esses-r-32-milhoes-a-gente-faz-a-campanha-do-beto/