Por: Darci Debona

Caminhões estavam parados na sede da BRF na tarde desta sexta após suspensão das exportações por parte do Ministério da Agricultura

Um mercado que representou US$ 775 milhões em embarques no ano passado está bloqueado para 10 unidades da BRF desde esta sexta-feira. A causa é a suspensão do Ministério da Agricultura e consequência da Operação Trapaça – uma sequência da Operação Carne Fraca, em que a Polícia Federal apurou fraude na elaboração de laudos sobre presença de salmonella na carne de frango.
A medida afeta diretamente Santa Catarina, que no ano passado vendeu US$ 62 milhões para os europeus, segundo dados coletados pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). Três unidades bloqueadas ficam no Estado, em Concórdia, Chapecó e Capinzal.
O quanto desses valores é representado pela produção da BRF não foi informado, mas consta do site da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) que a companhia é a líder em vendas.
Em Chapecó, o pátio da empresa estava cheio de caminhões carregados na tarde de sexta-feira. E a suspensão deve agravar a situação.
— O impacto é imediato, o preço do frango vai cair para R$ 2 o quilo. Cai o preço do porco e do boi e vai acumular prejuízo para a indústria e para o produtor — avalia o presidente da Companhia Integrada para o Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), Enori Barbieri.
Ele afirma que não há espaço nos armazéns, vai sobrar carne no mercado e não há como suspender imediatamente os abates, pois o ciclo do frango é de 45 dias. Por exemplo, se diminuir o alojamento dos pintinhos no campo agora, só vai reduzir a produção em um mês e meio.
O presidente do Sindicato dos Criadores de Aves de Santa Catarina (Sincravesc), Valdemar Kovaleski, disse que tanto o produtor quanto a indústria vão sofrer, mas que é momento de união.
— Isso vai gerar um impacto para a indústria e para o produtor, pode haver um intervalo maior entre os lotes, de cinco para 10 ou 15 dias. Não tenho dúvida que haverá um impacto, mas o importante é que isso não é um fechamento e sim uma suspensão temporária — diz Kovaleski.
O secretário da Agricultura de Santa Catarina, Airton Spies, também considera a medida um remédio amargo, para evitar algo pior.
— Isso foi necessário para evitar uma suspensão da União Europeia para todas as empresas, a gente ainda não tem a dimensão de quanto isso pode representar de prejuízo, mas esse mercado é 10% do total e, desse volume, parte é da BRF — afirma Spies

Ele disse que o impacto vai depender do tempo de suspensão. Na próxima semana, haverá uma reunião em Bruxelas, com representantes do Ministério da Agricultura e técnicos da União Europeia. A BRF divulgou uma nota sobre a suspensão e afirma que “vem mantendo intensa interlocução com as autoridades locais e internacionais, prestando todos os esclarecimentos necessários a fim de atestar a qualidade e segurança de seus produtos e preservar o relacionamento comercial com seus clientes e consumidores”.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) também emitiu um comunicado, afirmando que não há registro de problemas de saúde causados por carne brasileira:
“Com relação à suspensão dos embarques da BRF para a União Europeia, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa a avicultura e a suinocultura do País, confia em uma efetiva e imediata solução, por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para a retomada das exportações”.
A associação lembra que o setor gera 4,1 milhões de empregos diretos e indiretos para o país e afirma que somente na BRF são mais de 100 mil postos de trabalhos diretos. “A avicultura também protagoniza uma das mais relevantes contribuições, superando US$ 7 bilhões em divisas”, acrescenta a nota. A ABPA ainda afirma que “a questão decorre de divergências sobre critérios de classificação de produtos exportados no que tange à Salmonella spp que não traz risco à saúde pública”.

Setor de suínos também será afetado
Apesar da suspensão estar relacionada ao frango, o setor de suínos, que já vive um momento difícil com queda no preço da carne e aumento no custo de produção, vai sofrer com a provável sobra de frango no mercado interno.
— Não tem dúvida que a partir da semana que vem vamos sentir o impacto com  provável queda de preço, das carnes, isso vem agravar a situação dos produtores que já estão tendo prejuízos de até R$ 100 por suíno vivo e não vão conseguir pagar suas dívidas — afirmou o presidente da Associação Catarinense dos Criadores de Suínos, Losivânio de Lorenzi.
Ele também criticou a falta de habilidade do governo em lidar com os problemas encontrados nos frigoríficos. A reclamação dele e de outras lideranças do setor produtivo é que houve muito estardalhaço nas operações.
– Não foram os nossos concorrentes, mas, nós mesmos que colocamos em dúvida a qualidade do nosso produto – diz Lorenzi.
No final do ano passado, a Rússia, que comprava 40% da carne brasileira, suspendeu os embarques.

Entenda o caso

  • Em 17 de março do ano passado a Polícia Federal desencadeou a Operação Carne Fraca, em que alguns frigoríficos, entre eles a JBS e BRF, estariam envolvidos num esquema de corrupção envolvendo fiscais para liberar carne imprópria para o consumo. Foram cumpridos 309 mandados em seis estados. Em Santa Catarina a única unidade envolvida fera a Peccin, de Jaraguá do Sul.
  • No dia 5 de março foi deflagrada a Operação Trapaça, uma continuidade da Operação Carne Fraca, que apontou fraude em exames laboratoriais, entre eles o da salmonella, que pode provocar intoxicação alimentar se a carne for consumida crua. Nesta operação foram investigados cinco laboratórios e quatro plantas industriais da BRF, sendo uma delas em Chapecó, Santa Catarina.
  • No dia 16 de março o Ministério da Agricultura suspendeu as exportações de frango para a Europa de dez frigoríficos da BRF, sendo três em Santa Catarina: Chapecó, Concórdia e Capinzal.

Fonte: Diário Catarinense, 16 de março de 2018.

http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2018/03/brf-tem-suspensa-venda-para-mercado-de-us-775-milhoes-10192187.html