Universidades não conseguem formar profissionais suficientes para atender à alta da demanda, puxada por investimentos públicos e privados

A escassez de engenheiros vem pesando no bolso das empresas. O salário médio na área de engenharia subiu entre 15% e 20% neste ano, de acordo com um levantamento feito pela consultoria Michael Page a pedido do “Estado”. Um profissional recém-formado em universidades conceituadas consegue ocupar vagas com salários entre R$ 4.000 e R$ 5.000 no primeiro emprego, afirma o diretor da consultoria, Augusto Puliti.

O incremento nos salários é um reflexo da expansão do emprego no setor, puxada pelos investimentos privados e públicos feitos no Brasil nos últimos anos. O número de vagas abertas para o ramo de engenharia aumentou entre 20% e 30% neste ano em relação a 2010, segundo a Michael Page. Como a quantidade de engenheiros formados não cresce na mesma proporção, há uma disputa por mão de obra.

A Petrobrás, por exemplo, contratou 3.100 engenheiros de 2008 até setembro deste ano. Dos 58 mil funcionários da empresa, 11,5 mil ocupam cargos de engenharia e outros 1.225 empregos devem ser adicionados à área até 2013.

Para contratar novos profissionais ou reter talentos, as empresas tiveram de pagar mais. Na Engevix, por exemplo, o custo médio do salário de um engenheiro subiu 40% em quatro anos, afirmou o presidente da companhia, Cristiano Kok.

Na consultoria de projetos de engenharia Maubertec, o custo para contratar novos profissionais subiu 10% em termos reais – uma expansão da ordem de 27% em valores nominais. “As empresas menores buscam os engenheiros na faculdade para treinar. Mas o mercado está comprando gente. É difícil segurar os profissionais”, diz o empresário José Roberto Bernasconi, sócio da Maubertec.

As obras de infraestrutura previstas para o Brasil devem acirrar a briga por profissionais qualificados. A estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) é que serão necessários 500 mil engenheiros para executar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Além de concorrer entre si, as empresas de engenharia também disputam profissionais com outros setores, principalmente o mercado financeiro. Dos cerca de 750 mil engenheiros em atividade no Brasil, só 30% trabalham como assalariados na área, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “A engenharia foi uma profissão desvalorizada nos anos 80 e 90. Muitos profissionais acabaram migrando para outras áreas”, diz o presidente do Instituto de Engenharia, Aluizio Fagundes.

Sem oferta. Agora que o mercado de infraestrutura e tecnologia se aqueceu, a tendência é que os salários continuem a subir nos próximos anos. O motivo é que as universidades brasileiras formam menos engenheiros do que o número de vagas criadas em um ano.

Atualmente, o Brasil forma 35 mil engenheiros por ano, de acordo com dados de 2009 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que considera apenas os cursos com o nome de Engenharia. Mas o País deve abrir cerca de 100 mil vagas para engenheiros por ano até 2016, pelas estimativas do Instituto de Engenharia.

Porém, na hora de contratar, as empresas não buscam apenas profissionais com curso superior em engenharia. “Elas querem pessoas formadas em boas faculdades, com visão de negócios e com domínio de língua estrangeira”, diz o consultor da Michael Page.

Dos 35 mil engenheiros formandos, um quarto estudou em cursos mal avaliados pelo Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). E a maioria não fala inglês.

Fonte da notícia: MARINA GAZZONI, O Estado de S. Paulo – 03/11/2011