A construção de ponte entre o que os jovens podem oferecer e o que o mercado de trabalho necessita é fundamental para o combate ao desemprego. A sociedade democrática tem de ter responsabilidade para tratar todos os cidadãos de acordo com as suas possibilidades

Os países europeus que melhor administraram a crise econômica e o desemprego começou com um amplo consenso social e político que lhes permitiu criar medidas específicas, às vezes muito rigorosas, para enfrentar o verdadeiro problema. A Alemanha lançou mão da “Comissão Hartz” (2003-2005) para estimular a criação de empregos, o “Programa Wassenaar” da Holanda (1982) permitiu que funcionários mantivessem seus empregos por meio da aceitação de cortes salariais em troca da redução das horas de trabalho, com a possibilidade de se candidatar a um aumento ou diminuição da duração da jornada de trabalho (2000), e o acordo “Abfertigung neu” da Áustria (2003) introduziu uma mudança importante no sistema obrigatório de pagamentos de verbas rescisórias e na facilitação a um futuro complemento às aposentadorias.

Um consenso social promovido pelos governos, inexistente em Portugal, Espanha, Itália e Grécia, teria pleno apoio dos empregadores e sindicatos e seria compreensível junto a adversários políticos. Os fatores indispensáveis para enfrentar a situação vêm sendo a ampliação das perspectivas, do entendimento e do esforço, principalmente entre os líderes empresariais, os agentes fundamentais da criação de empregos.

A ausência de criação de empregos para a juventude é um dos outros males decorrentes da atual fragilidade da saúde econômica dos países. A Alemanha geriu seus sintomas, e continua sendo hoje a única nação que conseguiu diminuir o desemprego entre os jovens desde o início da crise, ao baixá-lo para menos de 8%.

Não há dúvida de que os cidadãos recém-formados das nossas sociedades querem se integrar à população economicamente ativa. Mas foi por negligência de instrução, de profissionalismo, de iniciativa ao longo desses anos, provocada por outras tensões econômicas, que os recém-formados ou os que obtiveram seu grau recentemente estão hoje sem trabalho. A Alemanha, sem dúvida, realizou a façanha de diminuir seu índice de desemprego entre os jovens graças a uma cultura de treinamento consagrada pelo tempo, que fez com que empresas se envolvessem no processo de recrutamento de jovens.

O emprego de meio período é outra solução eficiente na hora de aumentar as oportunidades de emprego. A Holanda é um exemplo claro de um país que adotou medidas para aumentar as oportunidades de empregos de meio período, com 50% dos contratos sendo de período parcial, bem acima da média europeia de pouco mais de 20%. Os holandeses promoveram esse tipo de contrato no início da década de 1980, como uma forma de equilibrar trabalho e família ou lazer, numa época em que o percentual de mulheres que ingressava no mercado de trabalho aumentava rapidamente; na década de 1990, eles encararam esses contratos como uma maneira eficiente de combater a crise e promover o emprego; e na década de 2000, concederam a esses contratos todos os mesmos direitos dos contratos de período integral. A possibilidade de uma modificação de um contrato é às vezes relegada, na pressa de tentar criar contratos a partir do nada.

A flexibilidade dentro de uma empresa, embora possa parecer supérflua à primeira vista com relação à criação de empregos, desempenhou, na verdade, papel fundamental na esfera da produtividade, na superação dos momentos mais difíceis da crise e na capacidade de encontrar respostas para evitar desativações de companhias e dispensas em massa. Um dos ônus reais foi à rigidez imposta por um sindicalismo anacrônico e incapaz de se adaptar aos tempos em que vivemos principalmente nos países do Sul da Europa.

Os pagamentos das verbas rescisórias deram lugar à proteção social dos desempregados, como se vê na Dinamarca e na Áustria, e a investida decisiva em favor de políticas ativas de emprego, como a realizada pela Alemanha, se concentrou em adaptar o ensino dos desempregados e dos jovens, de modo a atender às necessidades das empresas; ou, em outras palavras, de modo a fazer com que a oferta correspondesse à demanda. A construção dessa ponte entre o que os jovens podem potencialmente oferecer e o que o mercado de trabalho necessita é fundamental para que um país combata o desemprego.

Uma sociedade democrática tem de ter um senso de responsabilidade e sensibilidade para tratar todos os cidadãos de acordo com as suas possibilidades e com seu papel social, dando-lhes uma ajuda e auxiliando-os a ilustrar por meio de seu comportamento os valores que compõem as nossas culturas. A solidariedade para consigo mesmo deveria dar lugar à sociedade para com os outros, principalmente com aqueles que dela mais precisam. Os tidos por alguns como “o coração e a alma” da sociedade são postos à prova nos tempos difíceis, quando o que realmente importa não são palavras, mas atos.

Fonte: Valor Econômico, 07 de dezembro de 2015.

http://www.valor.com.br/opiniao/4344182/europa-e-crise-do-desemprego